História de quem foge e de quem fica - Elena Ferrante
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>> segunda-feira, 27 de julho de 2026
FERRANTE, Elena. História de quem foge e de quem fica. Rio De Janeiro: Editora Globo Livros, 2016. 416p. (Série Napolitana, v.3). Título original: Storia di chi fugge e di chi resta.
"Disse que não era absolutamente minha amiga, que me detestava, que era, sim, extraordinariamente inteligente, que era, sim, muito fascinante, mas que sua inteligência era mal utilizada - uma inteligência nefasta, que semeia discórdia e odeia a vida -, que seu fascínio era o mais intolerável, o fascínio que escraviza e conduz à ruína. Precisamente assim." p. 401
A Série Napolitana da Elena Ferrante, conta a saga de duas amigas desde a infância. Um romance novelesco, muito bem escrito e repleto de drama. Confiram o que achei do 3º volume com História de quem foge e de quem fica!
Ambientado na Itália no final da década de 60 e década de 70, seguimos acompanhando as histórias de vida de Lenu, Elena Greco, e Lila, Rafaella Cerrullo, agora já adultas e vivendo vidas muito diferentes.
Lenu lançou um romance que fez muito sucesso e fez uma turnê por várias cidades da Itália. Quando volta à Napóles é tratada como uma celebridade por um, e debochada por outros, que acharam seu livro erótico e imoral. Sua família, principalmente sua mãe, a trata ora com respeito, ora com desprezo. Ela está ansiosa para se casar com o noivo, Pietro Ariota, membro de uma família importante de professores universitários e escritores. Após se casar, eles planejam morar em Florença, onde Pietro já é professor de uma importante universidade. Lenu planeja consolidar sua carreira de escritora, mas almeja um livro mais intelectual e acaba sem conseguir escrever quase nada. Lenu também mantém uma relação platônica com Nino Sarratore, paixão antiga que nunca desaparece completamente.
Já Lila vive em extrema pobreza ao lado de Enzo Scanno e de seu filho Gennaro, Rino, uma criança inteligente, mas que cresce solto com as crianças do bairro. Ela e Enzo são amigos, mas o relacionamento dos dois, mesmo que não físico, significa algo mais. Lila trabalha como operária em uma fábrica de embutidos de Bruno Soccavo, que herdou o negócio do pai e o administra em péssimas condições. Quando Pasquale Peluso a procura, acaba envolvendo Lila nas reuniões do partido político e com grupos sindicais.
Em uma Itália em constante mudanças políticas, partidos de esquerda e grupos revolucionários se mobilizam e tentam lutar contra as condições da classe operária. Lila que se interessa por tudo, logo começa a ler sobre o assunto, escreve tudo o que acontece no local onde trabalha e se envolve quase sem querer com o movimento. E obviamente, atraí muito interesse para si. Ela reencontra, Nadia Galiani, filha da Professora Galiani, que orientou Lenu no antigo Liceu. Inteligente e inquieta, ela continua sendo uma figura magnética, capaz de desafiar todos ao seu redor.
Nos desafios que virão pela frente, Lenu e Lila, ora juntas, mas na maior parte do tempo separadas, viverão situações envolvendo relacionamentos amorosos e familiares difíceis, maternidade, movimentos sociais e a opressão da mulher em um mundo comandado pelos homens.
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A autora escreve muito bem! Tão bem que você termina e quer dar a nota máxima porque sua narrativa é muito envolvente, suas histórias são muito reais e suas protagonistas gritam por socorro durante todo o livro. É uma leitura que causa incômodo, revolta, nojo e diversos outros sentimentos muito vivamente. Por outro lado, eu acho a protagonista um porre na maior parte do tempo, confesso. E a evolução deste volume foi muito lenta, então minha nota vai refletir o livro como um todo e não só a reviravolta final, que me deixou sem palavras!
A história toda é cheia de contrastes, da pobreza do bairro delas em Nápoles, os personagens de lá parecem viver em uma bolha, onde o bairro é todo o mundo que eles conhecem e se importam. O título é fenomenal! Temos “quem foge” — tentando escapar das próprias origens — e “quem fica” — permanecendo presa ao ambiente que moldou sua identidade. Ou "quem foge" dos problemas e da vida que tem, e "quem fica" para lidar com tudo.
A amizade entre Lenu e Lila continua sendo mais tóxica do que benéfica, marcada por admiração, rivalidade, amor e ressentimento. Na primeira parte do livro temos apenas Lenu e sua nova vida; primeiro ainda no bairro e as viagens para divulgar seu livro, depois com sua mudança para Florença. Lila chama por ela em uma noite, e conta tudo o que aconteceu na fábrica, desde a última vez que tinham se falado. A luta de Lila para cuidar do filho, para se sustentar e mais tarde uma reviravolta, que começa com a ajuda de Pietro, marido de Lenu. A relação das duas é complicada como sempre. Uma hora Lila implora a ajuda de Lenu para cuidar do filho por algum tempo, em outra Lenu implora para que Lila leia o rascunho de seu novo livro e dê uma opinião sincera. Mas ao mesmo tempo elas não conseguem ser sinceras, não conseguem desabafar. Lenu quer sempre passar a imagem de estar muito bem, de SER melhor e esconde tudo. Quer mostrar que tem uma vida perfeita, uma maternidade perfeita e no fundo, mal está dando conta de tudo. Lila é outra que nunca conta nada e de repente muda toda a sua vida.
Outro ponto importante neste volume é a ambientação política e social da Itália nos anos 1970. As discussões sobre movimentos operários, universidades, militância e transformação social aparecem de forma constante, com vários dos personagens envolvidos de alguma forma.
Como eu disse no início, Lenu me irrita demais! Ela é chata, pedante, parece uma eterna adolescente. Ela só reclama, nada nunca está bom. E, sim, eu entendo que ela não teve muitas escolhas na vida, que casou com Pietro mais como alternativa para sair daquela vida familiar do que por amor. Que não queria ter filhos e logo está grávida, deixando a escrita de lado. Mas ela não arruma um emprego, não faz nada, reclama, mas fica ali dependendo do marido. Pietro não era nem de longe o homem perfeito, mas ela também nunca tenta conversar, são só gritos e brigas e frustrações o tempo todo. E mais da metade do livro vai nessa ladainha... até que na parte final tudo muda.
[ALERTA DE SPOILERS] Lenu volta ao bairro com a família de repente, porque descobre que a irmã mais nova, Elisa, está envolvida com um dos canalhas do bairro, o Marcello Solara. Ela acha que vai impedir algo, mas logo está em um jantar caótico que me arrancou risada, com todos presentes. Ela e Lila acabam se desentendendo, para variar, e Lenu volta para Florença deixando tudo de lado. No final ela reencontra Nino, que estava casado, tinha um filho pequeno, mas viaja sempre a trabalho, também professor, e acaba ficando amigo de Pietro, marido de Lenu. Ela tem duas filhas pequenas, mas se envolve com Nino, os dois completamente loucos ou apaixonados, e o livro termina com ela deixando uma carta para o marido e as filhas e fugindo com Nino! Lila tenta avisá-la que Nino é tão confiável quanto o pai dele, mas obviamente, ela não escuta. E Lila aceita trabalhar com computadores para Michelle Solara, que sempre foi obcecado por ela. E termina assim... [ FIM DOS SPOILERS]
O final me deixou muito curiosa para ler o último! E mesmo achando algumas partes lentas, no final eu adoro essa treta toda. Fora que é impossível não gostar da narrativa da Elena e seus personagens imperfeitos. Leiam!
Adicione ao seu Skoob!
Série Napolitana:
- A amiga genial (L’amiga geniale)
- História do novo sobrenome (Storia del nuovo cognome)
- História de quem foge e de quem fica (Storia di chi fugge e di chi resta)
- A filha perdida (Storia della bambina perduta)
Avaliação (1 a 5): 3.5
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